Domingo, 18 de Novembro de 2001

   

Divulgação - Trivision Studios
''Ninguém vive sem música''

Farhad Darya, autor da primeira
canção ouvida no rádio em Cabul
após a retirada dos talibãs

''Não gosto de cantar coisas tristes sobre o meu país'', diz Farhad Darya, um dos músicos mais famosos do Afeganistão. Em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil, o intérprete e compositor da primeira música tocada no rádio depois de cinco anos de opressão pelos talibãs em Cabul brinca, dizendo que fez a faculdade mais longa do mundo. Darya teve o curso de literatura na Universidade de Cabul interrompido mais de cinco vezes pelo Exército durante o regime comunista, que o convocou repetidamente. O músico - que atualmente vive nos EUA e já morou na antiga Tchecoslováquia, na Alemanha e na França - diz que voltará ao seu país assim que tiver garantias de que poderá ter uma vida livre no Afeganistão.

- Como o senhor soube que a sua música foi a primeira a ser tocada no rádio em Cabul?
- Todo dia de manhã eu confiro meu e-mail e vejo quais são as últimas notícias sobre o Afeganistão. Foi assim que soube do que havia acontecido. Você pode imaginar como eu fiquei. A música simboliza a liberdade no nosso país e o meu povo escolheu as minhas palavras, a minha voz para expressar isto. Foi um momento fantástico.

- É verdade que isto já havia acontecido na década de 90, quando os mujahedins entraram em Cabul?
- Sim. Acho que tocaram a mesma música. Quando eles entraram em Cabul, depois do regime de Najibullah, a mesma coisa aconteceu. Isto mostra que a música é alguma coisa a mais. Você não pode encerrá-la no bolso, porque ela se espalha. Ela vai à casa de um talibã, de uma comunista, de um mujahedin. Certa vez eu soube que dois destes grupos opositores que lutam há duas décadas no país estavam em combate e à noite puseram música nos alto-falantes de suas casas, uns para os outros. Eles estavam lutando entre si. Dá para acreditar?

- O povo afegão ficou mesmo estes anos todos sem ouvir música?
- Ninguém vive sem música. As pessoas podem até ser aprisionadas, que se tiverem música sobreviverão. Mas elas não podem ser livres e viver sem música. No Afeganistão, ninguém podia comprar cassetes, mas os afegãos trocavam as fitas entre si. As minhas músicas são tocadas dentro de muitas casas, inclusive casas de talibãs.

- Os talibãs também gostam da sua música?
- Mas claro! Há muitas provas disso. Eles ouvem as músicas em segredo. Nem mesmo um talibã pode viver sem música. Uma vez, um amigo meu que esteve no Afeganistão no período da dominação talibã contou-me ter conhecido uma mulher que era uma grande fã minha. Ela lhe disse que, certa vez, estava ouvindo uma música minha dentro de um carro e um talibã se aproximou e, muito irritado, perguntou: ''O que é isto?'' Ela respondeu: ''Farhad Darya''. Ele baixou a voz e disse: ''Tudo bem, tudo bem. Ele não é um infiel. Ele acredita em Deus, é uma pessoa boa. Mas leve isto daqui, leve.''

- O senhor se imagina fazendo um show em Cabul em breve?
- O Afeganistão é o meu sonho e não posso viver sem meus sonhos. Na verdade, quando o governo me der a possibilidade de sobreviver como um músico livre, voltarei para lá. Não sou um turista. Não quero ir ao Afeganistão para passar férias.

- Como é para um afegão viver nos Estados Unidos depois de 11 de setembro?
- No início, evitávamos sair de casa, porque havia muita tensão, tudo era muito delicado. Depois, os americanos entenderam que o povo afegão era inocente e passaram a levar isso em conta na vida diária. Nestes últimos 20 anos de guerra no Afeganistão, tenho cantando para pessoas fora do país para apresentar a minha música e, por meio dela, a cultura do meu país. Estou tentando agora recuperar a verdadeira imagem do meu povo. Quando um estrangeiro pensa em um afegão, vê um homem com dois Kalashnikovs nos ombros. Nós não somos responsáveis por isso.(J.S.)
   
 
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